Créditos: MimosoNews
Por: Luís Salvador Poldi Guimarães (Dodô)
Houve a 1ª Guerra Mundial seguida da 2ª Guerra Mundial. O período depois destas duas guerras foi denominado de Guerra Fria e determinou a orientação política na Síria, quando 08/03/1963 o Partido Baath Árabe Socialista tomou o poder do Presidente Nazim al-Kudsi através da revolução popular ocorrida em 1963 na Síria. Em 1970, Hafez al-Assad assumiu o poder e introduziu reformas nas estruturas econômicas e sociais. Sua política era baseada na tese de que os Estados árabes eram divisões regionais de uma grande Nação Árabe. A Síria teve um papel fundamental na Guerra dos Seis Dias (1967) e na Guerra do Yom Kippur (1973), durante as quais as forças israelenses ocuparam as Colinas de Golã. As Colinas de Golã se situam do lado direito ao norte do Mar da Galileia (Lago Tiberíades) onde Jesus peregrinava. As Colinas de Golã fazem divisas com Israel, Líbano e Síria. Jerusalém é protegida pelas forças da ONU.
Além disso, a Síria se opôs à política dos EUA na região e aos acordos de Camp David (1978). Em 1976, as tropas sírias formaram a força de dissuasão árabe para estabilizar a guerra civil no Líbano e evitar a partição do Líbano.
A Síria, oficialmente denominada de República Árabe da Síria, é um país árabe no Sudoeste Asiático, e faz fronteira com o Líbano e o Mar Mediterrâneo a oeste, Israel ao sudoeste, Jordânia ao sul, Iraque a leste, e Turquia ao norte. A Síria atual, dentro dos limites territoriais, foi criada durante o mandato francês e obteve sua independência em abril de 1946, como uma república parlamentar. O pós-independência foi instável, e um grande número de golpes militares sacudiram o país no período entre 1949-1970.
Sob o comando de Hafez al-Assad (1970 – 2000 = 29 anos de governo), a Síria alcançou trinta anos de estabilidade não visto anteriormente. O presidente sírio de religião alauíta, teve suas origens no campesinato, obtendo educação militar posteriormente. O equilíbrio forçado que Hafez logrou na Síria dependeu de suas manobras entre os diversos interesses sociais e etno-confessionais, utilizando meios diplomáticos, expurgos a inimigos políticos e força coercitiva a qualquer manifestação contra a sua personalidade ou governo. Na conjuntura internacional e regional, apesar dos acontecimentos que definiram a ordem mundial como a queda do bloco soviético, que foi aliado ao governo de Hafez por cerca de vinte anos, e a Primeira Guerra do Golfo, a segurança doméstica da Síria não foi abalada.
Desde a crise interna durante os anos de 1980 a rebelião da Irmandade Islâmica, a crise da saúde de Hafez e a tentativa de um golpe de poder pelo seu irmão Rifaat, o regime manteve-se estável.
Falando um pouco na Religião do Presidente. Os alauítas são uma minoria religiosa muçulmana fundados pelo Ibn Nussayr, ligada ao ramo xiita, com forte devoção à Ali, genro e primo do Profeta Maomé, considerado pelos xiitas como o primeiro Califa Rashidun, ou, “O Bem Guiado”, representam cerca de 15% da população síria.
Já a Irmandade Mulçumana da Síria (em árabe: Al-Ikhwan al-Muslimun fi Suriya) foi fundada após a Segunda Guerra Mundial, exatamente no dia 03 de fevereiro de 1945, por Mustafa al-Sibai e Muhammad al-Mubarak al-Tayyib, que eram amigos e colegas do fundador do Irmandade Muçulmana do Egito, Hassan al-Banna.
A fundação do movimento Irmandade Mulçumana foi o resultado da formação de organizações islâmicas em várias províncias sírias ao longo de uma década. Nos primeiros anos da independência da Síria (Abril/1946), a Irmandade Muçulmana foi parte da oposição legal, e nas eleições parlamentares ocorridas em 1961 ganhou dez lugares. Após o golpe de 1963 que trouxe o partido Baath secularista e pan-arabista ao poder, ela foi proibida (Irmandade Mulçumana). A Irmandade Mulçumana desempenhou um papel importante no movimento sunita de resistência que se opôs ao Partido Baath, (dominada pela família Assad, alauítas, adicionando um elemento religioso ao conflito com a Irmandade Mulçumana). Este conflito desenvolveu-se em uma luta armada no final de 1970 que culminou na revolta do Hamas de 1982, quando milhares foram mortos pelos militares. O governo sírio atribuiu à Saddam Hussein o apoio à esta revolta, o que acarretou o fechamento da fronteira entre os dois países (Síria e Iraque – Fronteira grande), e o oleoduto entre Kirkuk, no Iraque e o porto sírio de Baniyas, no Mediterrâneo.
Atualmente, a Irmandade Islâmica lidera a Coalização Nacional da Síria que se opõe ao governo de Bashar Hafez al-Assad. No entanto, a Irmandade Islâmica por ter sua estrutura formada e engajada no meio rural, não se apresentou forte como aparentou perante a sociedade, tanto que as forças salafistas e as forças dos radicais islâmicos predominam quanto ao poder de oposição a Bashar al-Assad.
A Síria é um Estado secularista e tem em sua identidade síria a retórica árabe nacionalista. Hafez al-Assad manobrava o seu apoio à questão Palestina para garantir a popularidade no mundo árabe. Para defender os interesses sírios, o presidente manteve o posicionamento contrário a qualquer assinatura de um acordo de paz com Israel até que houvesse a devolução de todos os territórios árabes ocupados.
Esse protagonismo na luta contra a ocupação israelense o distinguiu de outros líderes árabes como Anwar Sadat do Egito e o rei Hussein da Jordânia que assinaram acordos de paz com Israel.
No entanto, Hafez al-Assad, inúmeras vezes, traiu a confiança dos palestinos liderados pelo Yasser Arafat, como no Setembro Negro (1970) que ocorreu na Jordânia e houve o massacre nos campos de refugiados palestinos no Líbano (1982), que resultou em dois mil mortos. O presidente sírio (Hafez al-Assad - pai) não interferiu no assunto e nem sequer pronunciou contra, apesar de que em ambos acontecimentos sua personalidade esteve envolvida indiretamente. A ambição em manter a influência territorial no que foi a Grande Síria é o fator que dinamizou a política externa do governo Hafez al-Assad.
Preciso explicar o que quer dizer a Grande Síria: A ideia da “Grande Síria” foi resgatada no período do mandato francês da Síria e do Líbano (1920), após o fim da Primeira Grande Guerra. A reminiscência da presença Assíria na região reforçou o desejo do estabelecimento de uma “Grande Síria” que se estenderia desde os Montes Zagros (fronteira entre Iraque e Irã), até as margens do Mediterrâneo Oriental, ocupando basicamente todo o Crescente Fértil. Esta tese inclusive alimentou a ideia da criação de um grande Estado Árabe que pudesse agregar todo este território. Alguns partidos nacionalistas como o Partido Nacionalista Sírio, fundado em 1932, utilizarão esta tese para justificar a manutenção de uma “Grande Síria”, que deveria alcançar até a Península do Sinai, no Egito. Englobando: Israel, Jordânia e o Líbano.
Após os acordos secretos de Sykes-Picot, a região foi dividida entre o Reino Unido e a França. A “Grande Síria” do mandato francês, neste momento histórico, era formada pelos atuais países do Líbano, Síria e a província Turca de Hatay. Hatay é um apêndice no sul da Turquia.
A passagem do governo de Hafez al-Assad para seu filho Bashar al-Assad (no ano 2000) acarretou algumas mudanças. Bashar al-Assad, oftalmologista e médico pediatra com formação no Reino Unido, foi considerado popularmente um representante da “inovação moderna e moderada” no aspecto político e econômico. Dessa maneira, a estrutura do regime e o processo de tomada de decisão apresentaram maiores flexibilização, porém limitada, que passou a incluir não só as forças políticas de dentro do regime e as pretensões do presidente, mas também os interesses e as intenções de um círculo em torno dele.
Família, conselheiros e políticos que disputaram o poder político residual disponibilizado pela morte do centralista Hafez al-Assad em 10/06/2000. O novo gerenciamento político decorreu das alterações na geopolítica regional devido à queda do regime Baath no Iraque (banido em 2003), à declaração da democratização política do mundo árabe pelos Estados Unidos da América (EUA), e às consequências dos eventos ocorridos no Líbano (a saída de Israel do Sul do Líbano [14/08/2006] , e logo após houve as pressões internas para a retirada das tropas sírias do território libanês).
Os desafios políticos apresentados no início do governo conduziram a prática de potenciais alternativas. Bashar al-Assad (filho do Hafez al-Assad) convocou uma equipe de jovens para auxiliá-lo na condução das reformas econômicas no país.
O novo presidente, Bashar al-Assad, capacitou a reestruturação social com altos níveis educacionais, melhorou e investiu na qualidade em saúde e também em programas de modernização e capacitação empresarial. Nesse sentido, os tecnocratas que trabalharam para melhorar a condição econômica doméstica da Síria apresentaram logros (rsultados), contudo, não tinham poder político de base. É importante destacar que a condição de vida da população síria melhorou significativamente no governo de Bashar al-Assad, e em 2008, a cidade de Damasco, capital da Síria, foi considerada capital cultural do mundo árabe pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).
A preocupação de Bashar al-Assad em realizar mudanças econômicas para gerar emprego e renda para a população síria foi uma ideia que não deu certo e conduziu à deterioração gradual da forte presença militar no aspecto político, que mesmo os mantendo desde o governo de Hafez (seu pai), como os clãs Makhluf (Santo do Líbano), a família Kalbiyya (tribo ao qual pertence os al-Assad) e agentes de alto ofício alauítas e cristãos, não conseguiram prevenir o conflito que iniciou internamente em 2011 na Síria (Guerra Civil).
O Oriente Médio possui grande importância nas relações internacionais devido a presença do Petróleo. Além de ter sido, historicamente, o berço da civilização e de disputas por rotas comerciais. Atualmente, a região é de extrema relevância no sistema internacional devido à ocorrência do Petróleo.
A Síria produz 22.838 barris de petróleo por dia (dados de 2021). Para se ter uma ideia o Brasil produz perto de 3 milhões de barris por dia.
A Síria possui papel determinante no mundo árabe visto a posição estratégica e a existência de um corredor de passagem de recursos energéticos pelo seu território, além de apresentar uma das maiores forças armadas árabes e ser um legítimo aliado da Rússia, desde a antiga União das Repúblicas Soviéticas Socialistas (URSS 30/12/1922). Do ponto de vista geopolítico, a Síria é o epicentro do Oriente Médio, pois é um dos únicos países árabes a ser um Estado Secular e a manter os pilares de um nacionalismo árabe, além de ter uma grande participação regional, particularmente através do seu papel central no conflito árabe com Israel, que desde 1967 invadiu as Colinas de Golã (um corredor pequeno do lado direito do Mar da Galileia), e pelo envolvimento ativo nos assuntos libaneses e palestinos.
A escassez de estudos sobre este tema no Brasil, bem como a necessidade de coordenar dados complexos e de diversas opiniões, além da compreensão de um dos países que se apresenta mais instável atualmente, motiva essa preleção que faço hoje aqui na nossa rádio Mimoso Fm, a rádio que esbanja cultura.
A Síria é pouco investigada, mesmo sendo um país que carrega a história milenar da nossa civilização. A literatura sobre a política síria disponível no Brasil tem alcance muito limitado pois, muitas vezes, a história da Síria é tratada como um apêndice ou como uma consequência da história europeia. Toda esta informação que transmito a vocês foram retiradas de livros escritos em inglês, porque é difícil encontrar estudos sobre a Síria em língua portuguesa.
Bashar al-Assad manteve a orientação geopolítica de seu pai (Hafez al-Assad) , mas determinou novos rumos para a Síria. Temas como: Irmandade Muçulmana, Forças Armadas, vida e obra dos seus presidente, etc.). Temas narrando a dinâmica política síria, assim como a interação da Síria com atores regionais. No âmbito extrarregional a figura dos Estados Unidos como um ator que contribuiu para as mudanças na política externa da Síria.
Conhecer as ideologias do Partido Baath nos faz perceber que a Síria é uma República Despótica. Bashar al-Assad proporcionou uma abertura política ao país. Só que tudo isto mudou depois do atentado de 11 de setembro as torres gêmeas americanas em 2001. E mudou mais ainda a partir de 2003 quando do início da guerra do Iraque já debatida por nós no Nosso Programa Cultural.
O nacionalismo árabe defendido pela Síria não só pelo presidente Hafez e seu filho Bashar al-Assad, mas também desde a independência da Síria (abril/1946) da colonização francesa (a partir de 1918) e a ascensão do partido Baath no poder (Golpe de Estado - 08/03/1963) celebra a importância da cultura árabe e do cientificismo árabe que revolucionou a civilização. A união política árabe através do patrimônio linguístico e histórico comum é uma das premissas da sua ideologia. A libertação do colonialismo ocidental e o sentimento anti-otomano revigorou o nacionalismo árabe às luzes de lideranças patrocinadas pelo Egito, Síria e o Iraque. Especialmente em relação à Síria, a política definida pela cordialidade com o mundo árabe e a luta pela libertação dos territórios ocupados por Israel (junho/1967) representa o que nós historiadores denominamos de arabismo que é um pensamento fatal para os países colonialistas do Ocidente como França e Grã-Bretanha.
A Síria possui uma posição estratégica relevante no Oriente Médio. Consequentemente, a característica que prevalece na política externa síria como fator principal é a segurança. Durante os cinquenta anos de regime Assad (somados pai e filho), a política externa obteve muita eficiência em manter a estabilidade interna e a legitimidade de poder até os anos de 2010. A partir daí se iniciou a Guerra Civil.
A política externa da Síria foi caracterizada por uma identidade nacionalista árabe. Como tal, a busca da liderança árabe nessa arena regional, o aprofundamento das relações com os países árabes vizinhos e a mediação no conflito árabe-israelense, sendo assim, a dinamização das negociações com Israel cuja finalidade é recuperar os territórios árabes ocupados ilegalmente pelo país israelense foram os pivôs políticos do governo da família Assad.
Bashar Hafez al-Assad está vivo e já governa a Síria por quatro mandatos seguidos. Portanto, há 22 anos no poder.
A maior preocupação de Bashar Hafez al-Assad é a recuperação das Colinas de Golã ocupadas por Israel desde junho de 67, assim, mantendo a estratégia política necessária para estabilizar o seu poder na região em relação à Israel e enfrentar as ameaças vindas do Ocidente. A reação de Bashar al-Assad à pressão exercida pelos Estados Unidos sobre ele tem sido a de construir alianças com os países a nível regional e extrarregional. Desse modo, a política externa iniciada por Bashar Hafez al-Assad denota-se por uma maior acomodação com o Ocidente e produzir as reformas para a liberalização da economia.
Por isso é necessário compreender o contexto histórico da Síria. Utilizei muito de jornais árabes e da TV al-Jazira do Katar com transmissão em inglês.
Vou preparar um Programa Cultural destacando a relação dos EUA com a Síria e a reação de Bashar Hafes al-Assad com os Estados Unidos.
A Síria busca o que nós historiadores chamamos de Equilíbrio de Poder. Eu me baseei muito nos conhecimentos de Stephen Walt. Stephen Martin Walt é um Professor de Assuntos Internacionais da Universidade de Harvard. Seu livro denominado de: the hell of good intentions. Vou traduzir usando um linguajar mais acessível: De pessoas com boas intenções o inferno está cheio.
O debate teórico contemporâneo em Relações Internacionais que foi tema de hoje, envolve três paradigmas concorrentes: o realismo, o liberalismo e o construtivismo.
As teorias mostram a compreensão do comportamento dos Estados, bem como o seu papel para explicar a política internacional. Nesse sentido, o regime de Bashar al-Assad durante os seus 22 anos de governo apresentou a concentração de poder, sendo legitimado na personificação de um projeto de liderança nacionalista árabe, a resolução do conflito árabe-israelense e a devolução dos territórios árabes ocupados por Israel. A teoria que se encaixa para melhor explicar as escolhas políticas do governo Assad é o realismo, já que o equilíbrio de poder e a segurança do Estado é o que permeia a política externa da Síria.
O conflito na Síria já dura mais que 11 anos (começou em 2011). Já ultrapassou o nº de meio milhão de mortos. Abrangendo 5 milhões de refugiados! Agora em maio/2021, Bashar al-Assad obteve 95% dos votos em um pleito marcado por boicotes e condenado por parte da comunidade internacional.
Para vocês terem ideia o Estado da Bahia é um Estado muito grande do Brasil. Ele possui uma área de 567.295 km². O Deserto Sírio possui 500.000 km². São praticamente do mesmo tamanho.
Hoje a fome atua no Nordeste da Síria. E os preços dos alimentos subiram 800% na Síria. A desnutrição infantil aumentou 150% em menos de 1 ano. Chegou-se a registrar mais de 10 mil crianças desnutridas. Elevando o índice de crianças desnutridas para 16.895 crianças. 90% da população vive abaixo da linha da pobreza. Segundo a ONU, cerca de 9,3 milhões de crianças sírias precisam de assistência humanitária — um recorde no país.
O Nordeste da Síria está sendo administrado pelos curdos. O ponto de acesso Al-Yarubiyah, na fronteira com o Iraque, por onde passava a ajuda da ONU nesta região, foi fechado em 2020, sob pressão da Rússia, aliada ao regime de Bashar al-Assad.
Isso limitou ainda mais o acesso da população à ajuda humanitária. Desde então, a entrega dessa ajuda nessas áreas requer a aprovação do regime sírio.
Por isso, a organização ONU faz um apelo aos doadores, pedindo-lhes que "redobrem seus esforços para enfrentar a crise alimentar e mitigar seus efeitos devastadores sobre as crianças". Também pede que os líderes reunidos no Egito para a COP27 reconheçam que as mudanças climáticas, "como a seca no norte da Síria", afetam "crianças em todo o mundo".
Por isso que se deve cuidar da Amazônia. E não desprezá-la como tem feito a política de Bolsonaro. Foi o Presidente do Egito que convidou o Lula para ir agora a COP27 (27ª conferência do clima da Organização das Nações Unidas (ONU). Abdul Fatah Khalil Al-Sisi. Estas informações me foram passadas pelo Beat Rohr que é o diretor da ONG Save the Children na Síria. Lula viajou na 2ª feira agora (14/11).

